TRAJETÓRIA HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR NO BRASIL

HISTORICAL TRAJECTORY OF SCHOOL PHYSICAL EDUCATION IN BRAZIL

TRAYECTORIA HISTÓRICA DE LA EDUCACIÓN FÍSICA ESCOLAR EN BRASIL

ISSN: 3086-349X

Revista Quantum. Vol. 02 Ed. 03. 2026

Autores: 

José Gilmar Feitosa[1]

Orlando Marreiro de Souza Júnior[2]

Eliane Silva da Luz[3]

Josineide Gomes da Mota[4]

 

[1] Licenciatura em Educação Física, Universidade Federal do Amazonas UFAM Email gilmarfeitosa49@gmail.com

[2] Doutor em “Ciências da Educação” EBWU – EMIL BRUNNER WORLD UNIVERSITY. Professor da Rede de Ensino Municipal de Santo André – SP  https://orcid.org/0000-0001-8486-0910

[3] Mestra em Ciências da Educação – World Ecumenical University. Professora – Secretaria de Estado da Educação, da Cultura, do Esporte e do Lazer (SEEC/RN). E-mail: Elianeluz729@educar.rn.gov.br

[4] doutoranda em ciências da educação pela World University  Ecumenical. Profissão: professora de Educação Física.

 

RESUMO

 

A Educação Física escolar no Brasil passou por diversas transformações ao longo de sua trajetória histórica, acompanhando mudanças políticas, sociais, culturais e educacionais ocorridas no país. Inicialmente influenciada por concepções higienistas e militaristas, a disciplina assumiu diferentes funções e objetivos em cada período histórico, refletindo as necessidades e os interesses da sociedade brasileira. O presente estudo teve como objetivo analisar a trajetória histórica da Educação Física escolar no Brasil, destacando suas principais características, transformações e contribuições para a formação dos estudantes. A pesquisa caracteriza-se como bibliográfica, de abordagem qualitativa, fundamentada na análise de livros, artigos científicos, documentos legais e produções acadêmicas relacionadas ao tema. Os resultados evidenciaram que a Educação Física evoluiu de uma prática voltada ao condicionamento físico e à disciplina corporal para uma área comprometida com a formação integral dos alunos, valorizando aspectos motores, cognitivos, sociais e culturais. Observou-se ainda que as mudanças curriculares e as novas concepções pedagógicas contribuíram para ampliar o papel da disciplina no ambiente escolar. Conclui-se que a trajetória histórica da Educação Física demonstra sua importância para a educação brasileira e evidencia a necessidade de contínuo aperfeiçoamento das práticas pedagógicas para atender às demandas da sociedade contemporânea.

Palavras-chave: Educação Física Escolar; História da Educação; Formação Integral; Cultura Corporal; Ensino.

 

ABSTRACT

School Physical Education in Brazil has undergone several transformations throughout its historical trajectory, following political, social, cultural and educational changes that occurred in the country. Initially influenced by hygienist and militaristic conceptions, the discipline assumed different functions and objectives in each historical period, reflecting the needs and interests of Brazilian society. This study aimed to analyze the historical trajectory of School Physical Education in Brazil, highlighting its main characteristics, transformations and contributions to student education. The research is characterized as bibliographic, with a qualitative approach, based on the analysis of books, scientific articles, legal documents and academic publications related to the topic. The results showed that Physical Education evolved from a practice focused on physical conditioning and bodily discipline to an area committed to the integral development of students, valuing motor, cognitive, social and cultural aspects. It was also observed that curricular changes and new pedagogical conceptions contributed to expanding the role of the discipline in the school environment. It is concluded that the historical trajectory of Physical Education demonstrates its importance for Brazilian education and highlights the need for continuous improvement of pedagogical practices to meet contemporary social demands.

Keywords: School Physical Education; History of Education; Integral Education; Body Culture; Teaching.

 

RESUMEN

La Educación Física escolar en Brasil ha experimentado diversas transformaciones a lo largo de su trayectoria histórica, acompañando los cambios políticos, sociales, culturales y educativos ocurridos en el país. Inicialmente influenciada por concepciones higienistas y militaristas, la disciplina asumió diferentes funciones y objetivos en cada período histórico, reflejando las necesidades e intereses de la sociedad brasileña. El presente estudio tuvo como objetivo analizar la trayectoria histórica de la Educación Física escolar en Brasil, destacando sus principales características, transformaciones y contribuciones a la formación de los estudiantes. La investigación se caracteriza como bibliográfica, con enfoque cualitativo, basada en el análisis de libros, artículos científicos, documentos legales y producciones académicas relacionadas con el tema. Los resultados evidenciaron que la Educación Física evolucionó de una práctica orientada al acondicionamiento físico y la disciplina corporal hacia un área comprometida con la formación integral de los alumnos, valorando aspectos motores, cognitivos, sociales y culturales. También se observó que los cambios curriculares y las nuevas concepciones pedagógicas contribuyeron a ampliar el papel de la disciplina en el ámbito escolar. Se concluye que la trayectoria histórica de la Educación Física demuestra su importancia para la educación brasileña y evidencia la necesidad de un perfeccionamiento continuo de las prácticas pedagógicas para responder a las demandas de la sociedad contemporánea.

Palabras clave: Educación Física Escolar; Historia de la Educación; Formación Integral; Cultura Corporal; Enseñanza.

 

1 INTRODUÇÃO

 

A Educação Física escolar no Brasil apresenta uma trajetória histórica marcada por profundas transformações, que refletem as mudanças sociais, políticas, culturais e educacionais ocorridas ao longo do desenvolvimento do país. Inicialmente, a disciplina esteve associada a práticas voltadas ao controle do corpo, à disciplina e ao fortalecimento físico dos estudantes, influenciada por concepções higienistas e militaristas que predominavam em determinados períodos históricos. Nesse contexto, o foco principal estava na formação de corpos saudáveis, obedientes e aptos ao trabalho, com pouca valorização dos aspectos críticos, culturais e sociais da Educação Física.

Com o passar do tempo, novas concepções pedagógicas e avanços nas discussões acadêmicas contribuíram para a ressignificação da disciplina no ambiente escolar. A Educação Física passou a ser compreendida não apenas como prática corporal, mas como uma área do conhecimento responsável pela análise, compreensão e vivência da cultura corporal de movimento. Essa mudança de perspectiva possibilitou a ampliação dos objetivos da disciplina, que passou a contemplar o desenvolvimento integral dos estudantes, incluindo aspectos motores, cognitivos, sociais e emocionais.

No contexto atual, a Educação Física escolar enfrenta o desafio de superar práticas tradicionais ainda presentes em muitas instituições de ensino, que priorizam a repetição de exercícios físicos e a prática esportiva sem reflexão crítica. Ao mesmo tempo, busca-se consolidar uma abordagem pedagógica mais ampla, que valorize a participação ativa dos estudantes, a inclusão, a diversidade cultural e o desenvolvimento de competências para a vida em sociedade.

Diante desse cenário, torna-se relevante compreender como ocorreu a trajetória histórica da Educação Física escolar no Brasil, bem como os fatores que influenciaram suas transformações ao longo do tempo. Essa compreensão permite identificar os avanços conquistados pela área e os desafios que ainda precisam ser superados para o aprimoramento das práticas pedagógicas.

Nesse sentido, o problema de pesquisa que orienta este estudo é: como as diferentes concepções históricas da Educação Física escolar brasileira contribuíram para sua configuração contemporânea e quais permanências e rupturas podem ser identificadas nesse processo?

O objetivo geral deste estudo é analisar criticamente a trajetória histórica da Educação Física escolar no Brasil, identificando as principais concepções que marcaram sua constituição e discutindo as permanências, rupturas e transformações pedagógicas que influenciam sua configuração contemporânea. Como objetivos específicos, busca-se identificar as principais influências históricas que contribuíram para a constituição da Educação Física escolar brasileira; compreender as transformações ocorridas nas concepções pedagógicas da área ao longo de diferentes períodos históricos; e analisar de que maneira elementos de diferentes perspectivas pedagógicas permanecem ou são ressignificados na Educação Física escolar contemporânea.

A relevância deste estudo está relacionada à necessidade de compreender a Educação Física escolar para além de uma sucessão de períodos históricos, considerando que as transformações ocorridas na área resultaram de disputas, permanências e rupturas entre diferentes concepções de corpo, educação e sociedade. Dessa forma, a análise de sua trajetória histórica permite compreender que a superação de determinados modelos pedagógicos não ocorreu de maneira linear, uma vez que práticas associadas ao higienismo, ao militarismo e à esportivização podem permanecer presentes, em diferentes níveis, no cotidiano escolar, mesmo diante da consolidação de perspectivas críticas e da compreensão da Educação Física como componente curricular voltado à cultura corporal de movimento.

Assim, compreender a trajetória histórica da Educação Física escolar brasileira contribui não apenas para identificar os avanços teóricos e pedagógicos alcançados pela área, mas também para reconhecer desafios que permanecem no contexto educacional contemporâneo. Essa perspectiva possibilita refletir sobre a necessidade de práticas pedagógicas que articulem os conhecimentos historicamente construídos pela Educação Física às demandas atuais relacionadas à inclusão, à diversidade, à participação dos estudantes e à formação integral.

2 REFERENCIAL TEÓRICO

2.1 Origem e consolidação da Educação Física escolar no Brasil

A Educação Física escolar no Brasil possui uma trajetória histórica marcada pela influência de diferentes concepções de corpo, educação e sociedade. Suas primeiras formas de institucionalização ocorreram em um contexto no qual as práticas corporais eram compreendidas principalmente a partir de sua contribuição para a saúde, a disciplina e a preparação dos indivíduos para as necessidades sociais de cada período. Dessa forma, a constituição da Educação Física escolar não pode ser compreendida apenas como a introdução de exercícios físicos no ambiente escolar, mas como parte de um processo mais amplo de organização social e educacional.

Durante o período imperial e nos primeiros anos da República, a influência de modelos europeus foi significativa para a organização das práticas corporais desenvolvidas nas instituições de ensino. Métodos ginásticos oriundos principalmente da Alemanha, da Suécia e da França contribuíram para a sistematização das atividades físicas nas escolas brasileiras. Esses modelos estavam associados a concepções de corpo relacionadas à saúde, à disciplina, à ordem e à preparação para o trabalho. Segundo Soares (2001), a constituição da Educação Física brasileira esteve vinculada a projetos de modernização da sociedade, nos quais a formação de indivíduos considerados saudáveis e disciplinados assumia importância social.

Ghiraldelli Júnior (1998) destaca que a ginástica ocupou posição central nas primeiras formas de organização da Educação Física escolar, caracterizando-se pela sistematização dos exercícios, pela correção postural e pelo desenvolvimento das capacidades físicas. Nesse contexto, o corpo era predominantemente compreendido sob uma perspectiva funcional, sendo valorizado de acordo com sua capacidade de responder às demandas de disciplina, produtividade e preparação física.

Essa perspectiva evidencia que a consolidação inicial da Educação Física escolar esteve relacionada a uma determinada concepção de educação corporal. O ensino das práticas corporais apresentava caráter predominantemente diretivo, com o professor ocupando posição central e os estudantes desempenhando papel mais passivo. A execução correta dos movimentos e a formação de hábitos considerados adequados recebiam maior atenção do que a reflexão sobre os significados sociais e culturais das práticas corporais.

Entretanto, é importante considerar que a influência desses modelos não deve ser interpretada de forma exclusivamente negativa ou como um processo homogêneo em todo o território brasileiro. A institucionalização da Educação Física também contribuiu para conferir maior reconhecimento às práticas corporais no espaço escolar e para estabelecer formas sistematizadas de ensino. O aspecto problemático estava principalmente na redução do fenômeno corporal à sua dimensão biológica e disciplinar, limitando suas possibilidades educativas e culturais.

Ao longo do processo de consolidação da Educação Física escolar, essas concepções passaram a se articular com os ideais higienistas e militaristas que ganharam força no Brasil. A preocupação com a formação de corpos saudáveis, disciplinados e socialmente adequados passou a orientar parte significativa das práticas pedagógicas. Dessa maneira, a história inicial da Educação Física escolar revela uma relação estreita entre educação corporal, projetos sociais e concepções de formação humana.

A análise desse período permite compreender uma das principais características da trajetória histórica da área: as concepções pedagógicas da Educação Física estiveram relacionadas às necessidades e aos valores predominantes em cada contexto histórico. Essa constatação é importante para compreender as transformações posteriores, pois as mudanças ocorridas ao longo do século XX não representaram simplesmente o abandono imediato das concepções anteriores, mas um processo gradual de permanências, críticas e ressignificações que influenciou a constituição da Educação Física escolar contemporânea.

 

2.2 Influência do higienismo, militarismo e esportivização na Educação Física escolar

Ao longo do final do século XIX e início do século XX, a Educação Física escolar brasileira passou a incorporar de maneira mais sistemática concepções higienistas e militaristas. Essas perspectivas estavam relacionadas a uma determinada compreensão de corpo, segundo a qual a educação corporal deveria contribuir para a formação de indivíduos saudáveis, disciplinados e preparados para responder às necessidades sociais e políticas de seu tempo. Nesse contexto, a Educação Física assumiu funções que ultrapassavam o desenvolvimento das capacidades físicas, vinculando-se também à formação de comportamentos considerados adequados à organização social.

O higienismo atribuiu às práticas corporais uma importante função relacionada à saúde e à prevenção de doenças, enquanto o militarismo enfatizou aspectos como disciplina, obediência, hierarquia e preparação física. Conforme Castellani Filho (1998), essas concepções contribuíram para a constituição histórica da Educação Física brasileira, associando a educação do corpo a projetos mais amplos de organização e controle social.

Nesse modelo, as aulas eram predominantemente estruturadas de forma diretiva, com exercícios sistematizados, comandos padronizados e centralidade da atuação docente. A participação dos estudantes ocorria principalmente pela execução dos movimentos determinados pelo professor, reduzindo as possibilidades de diálogo, criação e reflexão sobre as práticas corporais. Bracht (1999) relaciona essa tradição à consolidação de uma concepção biologicista da Educação Física, na qual o corpo era compreendido prioritariamente em sua dimensão física e funcional.

A análise desse período permite compreender que a Educação Física escolar não se constituiu de maneira neutra. As formas de ensinar o corpo estavam relacionadas aos valores e projetos de sociedade predominantes em determinados contextos históricos. Assim, a valorização da disciplina, da obediência e da aptidão física não pode ser dissociada das concepções de formação humana presentes na escola e nas políticas educacionais daquele período.

A partir da segunda metade do século XX, especialmente entre as décadas de 1960 e 1980, ocorreu uma mudança significativa na organização dos conteúdos da Educação Física escolar, com o fortalecimento da esportivização. Os esportes institucionalizados passaram a ocupar posição central nas aulas, reduzindo progressivamente o espaço anteriormente ocupado pelas práticas ginásticas e pelos exercícios de caráter predominantemente militar.

Kunz (1994) destaca que a esportivização esteve associada à valorização da técnica, do rendimento e da competição. Modalidades como futebol, voleibol, basquetebol e atletismo passaram a ser utilizadas de forma recorrente como conteúdos escolares, muitas vezes com ênfase na aprendizagem dos fundamentos técnicos e na melhoria do desempenho físico dos estudantes.

Embora a presença do esporte tenha ampliado o repertório de práticas corporais vivenciadas no espaço escolar e aproximado a Educação Física de uma manifestação cultural de grande relevância social, sua utilização predominantemente tecnicista também produziu limitações pedagógicas. Betti (1992) aponta que a centralidade do esporte poderia restringir a diversidade dos conteúdos da disciplina e favorecer processos de seleção e exclusão de estudantes que não apresentavam elevado desempenho motor.

Nesse sentido, a esportivização não deve ser compreendida apenas como uma ruptura com o modelo higienista e militarista. Apesar da substituição de determinados conteúdos e métodos, permaneceram elementos relacionados à valorização do desempenho físico, à padronização dos movimentos e à seleção dos alunos segundo critérios de habilidade. Observa-se, portanto, uma continuidade de determinadas formas de compreender o corpo e o ensino, ainda que sob uma nova organização pedagógica.

Essa permanência é relevante para compreender a trajetória posterior da Educação Física escolar. As críticas construídas a partir das décadas de 1980 e 1990 não surgiram isoladamente, mas como resposta às limitações de modelos que priorizavam a dimensão biológica, a disciplina corporal e, posteriormente, o rendimento esportivo. O chamado movimento renovador da Educação Física passou, então, a questionar a função social da disciplina e a defender outras formas de compreender as práticas corporais e sua relação com a educação.

Dessa maneira, a trajetória entre o higienismo, o militarismo e a esportivização evidencia que as transformações da Educação Física escolar ocorreram por meio de continuidades e rupturas. A mudança dos conteúdos e das metodologias não significou necessariamente o desaparecimento imediato das concepções anteriores, mas a construção gradual de novas perspectivas pedagógicas que passaram a disputar espaço no interior da escola.

 

2.3 Educação Física contemporânea: cultura corporal e formação integral

A partir das décadas de 1980 e 1990, a Educação Física escolar brasileira passou por um processo de renovação teórica e pedagógica marcado por críticas às concepções biologicistas, tecnicistas e esportivizadas que haviam predominado em diferentes momentos históricos. Esse movimento contribuiu para ampliar a compreensão da Educação Física como componente curricular relacionado à produção, apropriação e problematização das práticas corporais, deslocando gradualmente o foco exclusivo do desempenho físico para uma perspectiva educacional mais ampla.

Soares et al. (1992) contribuíram para esse processo ao compreenderem a Educação Física a partir da cultura corporal, contemplando manifestações como jogos, esportes, danças, lutas, ginásticas e brincadeiras. Nessa perspectiva, as práticas corporais não são entendidas apenas como movimentos a serem executados, mas como manifestações produzidas historicamente pelos diferentes grupos sociais. Essa compreensão permite considerar os conhecimentos, os significados e os valores presentes nas práticas corporais como elementos constitutivos do processo educativo.

Bracht (1999) reforça essa mudança ao questionar a redução da Educação Física à dimensão biológica do corpo e ao treinamento físico. A partir dessa perspectiva crítica, o corpo passa a ser compreendido também como construção histórica, social e cultural. Consequentemente, o ensino da Educação Física passa a envolver não apenas a aprendizagem de habilidades motoras, mas também a possibilidade de compreender criticamente as relações estabelecidas entre corpo, cultura e sociedade.

A Base Nacional Comum Curricular (BRASIL, 2018) consolidou uma orientação curricular na qual a Educação Física integra a área de Linguagens e tematiza diferentes práticas corporais. A proposta amplia as possibilidades de aprendizagem ao considerar que os estudantes devem vivenciar, compreender, apreciar e produzir conhecimentos relacionados às práticas corporais, favorecendo experiências vinculadas à participação, à autonomia e ao respeito às diferenças.

Estudos contemporâneos reforçam a importância de compreender a cultura corporal para além da simples execução de movimentos. Liska (2024), ao analisar a relação entre cultura, linguagens, práticas corporais e documentos orientadores da Educação Física, destaca a necessidade de aproximar os referenciais curriculares das práticas efetivamente desenvolvidas no contexto educacional. Essa discussão evidencia que a presença da cultura corporal nos documentos curriculares não garante, por si só, sua concretização nas práticas pedagógicas, sendo necessário considerar as condições concretas de trabalho e as escolhas realizadas pelos professores.

Nesse sentido, a Educação Física contemporânea apresenta uma importante tensão entre os avanços conceituais alcançados pela área e os desafios existentes para sua efetivação no cotidiano escolar. A existência de propostas curriculares voltadas à cultura corporal e à formação integral não significa que práticas tradicionais, centradas exclusivamente na repetição de exercícios, na seleção por habilidade ou no rendimento esportivo tenham desaparecido. Ao contrário, diferentes concepções podem coexistir no espaço escolar, fazendo com que a transformação pedagógica ocorra de maneira desigual.

Outro desafio contemporâneo refere-se à inclusão e à garantia da participação de todos os estudantes nas aulas de Educação Física. Jucá e Maldonado (2024), em revisão integrativa sobre Educação Física escolar e inclusão, identificaram a relevância da discussão sobre organização de práticas político-pedagógicas que favoreçam a participação equitativa dos estudantes. Os autores evidenciam que a inclusão constitui uma questão curricular e pedagógica que precisa ser incorporada ao planejamento do componente, e não tratada apenas como adaptação pontual de atividades.

A formação docente também representa um elemento fundamental nesse processo. Estudos recentes indicam que a formação inicial e continuada possui relação direta com a capacidade dos professores de organizar práticas pedagógicas inclusivas e responder às diferentes necessidades presentes no cotidiano escolar. Pirolo, Vitaliano e Gomes (2024), por exemplo, identificaram, em pesquisa colaborativa, que processos de formação em serviço podem ampliar as possibilidades de atuação dos professores de Educação Física diante dos desafios relacionados à inclusão.

Dessa maneira, a perspectiva contemporânea da Educação Física escolar precisa ser compreendida como resultado de um processo histórico ainda em construção. A incorporação da cultura corporal, a valorização da diversidade e a busca pela formação integral representam avanços importantes, mas sua efetivação depende das condições pedagógicas, curriculares e institucionais disponíveis em cada contexto escolar.

Assim, a principal mudança observada na trajetória da Educação Física escolar não consiste simplesmente na substituição de um modelo por outro, mas na ampliação progressiva daquilo que se entende por corpo, movimento, conhecimento e finalidade educativa. Entretanto, as permanências de práticas tecnicistas e esportivizadas demonstram que as transformações conceituais da área não ocorrem automaticamente no cotidiano escolar. A consolidação de uma Educação Física crítica, inclusiva e culturalmente contextualizada depende, portanto, da articulação entre currículo, formação docente, condições de trabalho e práticas pedagógicas.

3 METODOLOGIA

A presente pesquisa caracteriza-se como um estudo de natureza básica, de abordagem qualitativa e com objetivo descritivo-exploratório. O trabalho foi desenvolvido por meio de pesquisa bibliográfica, tendo como foco a análise da trajetória histórica da Educação Física escolar no Brasil e suas principais transformações ao longo do tempo. A pesquisa bibliográfica possibilita o levantamento, a análise e a interpretação de produções científicas e documentos relacionados ao objeto de estudo, contribuindo para a construção de uma fundamentação teórica consistente.

Segundo Gil (2008), a pesquisa bibliográfica é desenvolvida a partir de materiais já elaborados, como livros, artigos científicos, teses, dissertações e documentos oficiais, permitindo ao pesquisador ampliar o conhecimento sobre determinado tema e construir uma análise fundamentada teoricamente. Nesse sentido, este estudo buscou reunir, selecionar e interpretar produções acadêmicas relevantes sobre a Educação Física escolar, considerando suas diferentes fases históricas, concepções pedagógicas e transformações no contexto educacional brasileiro.

A escolha pela abordagem qualitativa justifica-se pelo interesse em compreender o fenômeno investigado de maneira interpretativa, considerando os diferentes significados, concepções e transformações relacionados à Educação Física no contexto escolar brasileiro. De acordo com Minayo (2010), a pesquisa qualitativa trabalha com o universo dos significados, motivos, aspirações, crenças e valores, possibilitando uma compreensão mais aprofundada dos fenômenos sociais e educacionais.

O levantamento bibliográfico foi realizado entre março e junho de 2026, por meio de consultas às bases de dados Google Acadêmico, SciELO e Portal de Periódicos CAPES. A busca teve como finalidade identificar produções científicas relacionadas à história da Educação Física escolar no Brasil, às suas transformações históricas e às diferentes concepções pedagógicas que contribuíram para a constituição da disciplina no contexto escolar. Para a realização das buscas, foram utilizados os descritores “Educação Física escolar”, “história da Educação Física”, “Educação Física no Brasil”, “Educação Física escolar no Brasil”, “tendências pedagógicas da Educação Física” e “concepções pedagógicas da Educação Física”, combinados, quando necessário, por meio dos operadores booleanos AND e OR.

Inicialmente, foram identificadas 87 publicações nas bases de dados consultadas. Após a análise dos títulos e resumos e a aplicação dos critérios de seleção, foram excluídos os trabalhos duplicados, aqueles que não apresentavam relação direta com a temática investigada e as publicações que não contribuíam para a compreensão da trajetória histórica da Educação Física escolar no Brasil. Ao final desse processo, foram selecionados 32 estudos para leitura mais aprofundada, dos quais 18 foram utilizados como base para a análise e discussão do presente estudo.

Foram estabelecidos como critérios de inclusão: publicações relacionadas à Educação Física escolar e à sua trajetória histórica no Brasil; artigos científicos, livros, capítulos de livros, teses, dissertações e documentos oficiais pertinentes ao tema; produções que apresentassem fundamentação teórica relevante para a compreensão das transformações históricas, sociais e pedagógicas da área; e materiais disponíveis em língua portuguesa ou diretamente relacionados ao contexto educacional brasileiro. Como critérios de exclusão, foram desconsideradas publicações duplicadas, trabalhos sem relação direta com o objeto de estudo, estudos voltados exclusivamente para outras áreas da Educação Física e materiais que não apresentassem informações suficientes para contribuir com os objetivos da pesquisa.

Além dos artigos e demais produções acadêmicas selecionadas, foram consultadas obras clássicas e contemporâneas da área da Educação Física e da Educação, bem como documentos oficiais relacionados à organização da Educação Básica brasileira. Entre esses documentos, destaca-se a Base Nacional Comum Curricular – BNCC (BRASIL, 2018), utilizada como referência para compreender a inserção e a organização da Educação Física no currículo da Educação Básica na contemporaneidade.

A análise das informações foi realizada por meio da análise de conteúdo, conforme os pressupostos apresentados por Bardin (2011). Esse procedimento possibilitou organizar, sistematizar e interpretar as informações presentes nas produções selecionadas, permitindo a identificação de categorias temáticas relacionadas à trajetória histórica da Educação Física escolar. Entre as categorias consideradas na análise, destacaram-se o período higienista, a influência militarista, o processo de esportivização e as concepções pedagógicas relacionadas à cultura corporal.

As informações obtidas foram organizadas e interpretadas à luz do referencial teórico selecionado, buscando identificar convergências e divergências entre os autores e compreender as principais mudanças ocorridas nas finalidades, nos conteúdos e nas práticas pedagógicas da Educação Física escolar ao longo do tempo. A análise também considerou as relações entre os diferentes contextos históricos e sociais e a constituição das concepções de Educação Física presentes no ambiente escolar brasileiro.

Por se tratar de uma pesquisa de natureza bibliográfica e documental, baseada exclusivamente em fontes secundárias, documentos oficiais e materiais de domínio público, não foram realizadas entrevistas, aplicação de questionários, observações com participantes ou qualquer outra forma de coleta direta de dados envolvendo seres humanos. Dessa forma, não houve participação de sujeitos de pesquisa nem coleta de dados pessoais. O estudo foi desenvolvido em conformidade com os princípios éticos da pesquisa científica, mediante a utilização e a adequada identificação das fontes consultadas.

Dessa forma, os procedimentos metodológicos adotados possibilitaram a sistematização e a análise das produções selecionadas, permitindo construir uma interpretação fundamentada sobre a trajetória histórica da Educação Física escolar no Brasil. A metodologia empregada contribuiu, portanto, para compreender as principais transformações históricas, pedagógicas e sociais da disciplina e suas implicações para o contexto educacional contemporâneo.

 

4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

 

A análise da literatura evidenciou que a trajetória histórica da Educação Física escolar no Brasil é marcada por transformações profundas, diretamente relacionadas às mudanças sociais, políticas e educacionais ocorridas no país. Os estudos consultados demonstram que a disciplina passou por diferentes concepções e finalidades, desde uma abordagem predominantemente higienista e militarista até perspectivas que compreendem as práticas corporais como manifestações culturais, sociais e históricas.

De modo geral, os resultados indicam que, em sua fase inicial, a Educação Física escolar esteve fortemente relacionada à formação de corpos saudáveis, disciplinados e produtivos. Nesse período, as práticas corporais eram frequentemente orientadas por princípios higienistas e militaristas, valorizando a disciplina, a padronização dos movimentos, a aptidão física e a preparação corporal. As aulas eram marcadas por práticas rígidas e repetitivas, com reduzido espaço para a reflexão crítica e para a consideração das dimensões culturais e sociais do corpo.

Com o avanço do século XX, especialmente com o processo de esportivização, observa-se uma mudança significativa nos conteúdos trabalhados nas aulas. Os esportes institucionalizados passaram a ocupar posição central na Educação Física escolar, contribuindo para maior sistematização das práticas esportivas no ambiente educacional. Entretanto, essa perspectiva também apresentou limitações, principalmente quando o rendimento, a competição e a técnica passaram a ocupar posição predominante. Nesse contexto, estudantes que apresentavam menor habilidade motora ou menor desempenho esportivo poderiam ser colocados em situação de exclusão ou participação reduzida.

Segundo Kunz (1994), a predominância do modelo esportivizado contribuiu para aproximar a escola da cultura esportiva, mas também favoreceu uma abordagem tecnicista quando o ensino se concentrou excessivamente na execução dos movimentos e no rendimento. Betti (1992), por sua vez, problematiza a centralidade do esporte na Educação Física escolar, destacando a necessidade de ampliar os conteúdos e as possibilidades pedagógicas oferecidas aos estudantes.

A partir das décadas de 1980 e 1990, observa-se uma importante transformação no campo teórico da Educação Física brasileira, caracterizada pelo fortalecimento de perspectivas críticas e pela ampliação da compreensão da cultura corporal. Nesse processo, manifestações como jogos, brincadeiras, danças, lutas, ginásticas e esportes passaram a ser compreendidas não apenas como atividades destinadas ao desenvolvimento físico, mas também como práticas produzidas historicamente e carregadas de significados culturais e sociais.

Soares et al. (1992) defendem a compreensão da Educação Física a partir da cultura corporal, considerando que os conteúdos trabalhados pela disciplina fazem parte da produção histórica da humanidade. Bracht (1999) também contribui para essa discussão ao problematizar a compreensão exclusivamente biológica do corpo e destacar sua dimensão social e cultural. Dessa forma, a Educação Física escolar passa a assumir uma função educativa mais ampla, envolvendo experiências corporais, reflexão, participação, socialização e compreensão crítica das práticas corporais.

Essa transformação encontra correspondência nos documentos curriculares contemporâneos. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) reconhece a Educação Física como componente curricular da área de Linguagens e estabelece competências específicas para o Ensino Fundamental relacionadas à compreensão da cultura corporal de movimento, à reflexão crítica sobre saúde e doença, ao enfrentamento de preconceitos e discriminações, ao reconhecimento das práticas corporais como elementos da identidade cultural e à participação autônoma nessas práticas.

A articulação com a BNCC demonstra que a Educação Física escolar contemporânea não deve ser compreendida apenas como espaço para a realização de exercícios físicos ou para o desenvolvimento do desempenho motor. O documento propõe que os estudantes tenham contato com diferentes práticas corporais e sejam capazes de atribuir sentidos e significados a essas experiências, reconhecendo suas dimensões culturais, sociais e históricas. Entre as competências específicas estabelecidas para o componente estão a compreensão da origem da cultura corporal de movimento, a reflexão crítica sobre as relações entre práticas corporais e saúde, a identificação e o combate aos preconceitos relacionados às práticas corporais e o reconhecimento dessas práticas como elementos constitutivos da identidade cultural de diferentes povos e grupos.

Essa perspectiva também está relacionada ao marco legal que estabelece a Educação Física como componente curricular obrigatório da Educação Básica, integrada à proposta pedagógica da escola, conforme previsto no artigo 26, § 3º, da Lei nº 9.394/1996, com redação dada pela Lei nº 10.793/2003. Dessa forma, a disciplina assume lugar institucionalizado no currículo escolar e deve contribuir para os processos formativos desenvolvidos pela escola.

A análise da literatura permite observar, portanto, uma mudança gradual entre diferentes formas de compreender a Educação Física escolar. Enquanto as concepções higienista e militarista enfatizavam disciplina, saúde e preparação corporal, e a esportivização privilegiava técnica, rendimento e competição, as perspectivas críticas e a abordagem da cultura corporal ampliaram o objeto de ensino da disciplina, incorporando dimensões culturais, sociais, históricas e políticas.

Apesar desses avanços, os estudos analisados também apontam a permanência de desafios no cotidiano escolar. Entre eles, destacam-se a continuidade de práticas pedagógicas tradicionais, a necessidade de formação continuada dos professores, a insuficiência ou inadequação de espaços e materiais para determinadas práticas corporais e as dificuldades encontradas para desenvolver propostas pedagógicas diversificadas e inclusivas. Esses fatores demonstram que a existência de orientações curriculares não garante, por si só, sua efetivação nas práticas escolares.

Nesse sentido, a distância entre as proposições presentes nos documentos normativos e a realidade encontrada em diferentes contextos escolares constitui um aspecto relevante para a discussão. A BNCC estabelece competências e aprendizagens relacionadas à participação, à reflexão crítica, à diversidade e ao acesso às diferentes práticas corporais, mas sua concretização depende das condições pedagógicas, estruturais e formativas disponíveis em cada escola.

Para ampliar a capacidade analítica dos resultados, a Tabela 1 apresenta uma síntese das principais fases históricas da Educação Física escolar no Brasil, relacionando o contexto histórico, as características predominantes, os objetivos educacionais, as abordagens pedagógicas, as contribuições e as limitações identificadas na literatura.

A síntese apresentada na Tabela 1 demonstra que as transformações da Educação Física escolar não ocorreram de maneira isolada, mas acompanharam mudanças nas concepções de educação, sociedade, corpo e aprendizagem. Observa-se também que cada período apresentou contribuições e limitações específicas. Enquanto as primeiras abordagens contribuíram para a institucionalização da disciplina e para a valorização da saúde e da aptidão física, os modelos posteriores ampliaram os conteúdos e possibilitaram uma compreensão mais abrangente das práticas corporais.

A relação entre as diferentes abordagens pedagógicas e seus resultados permite compreender que a evolução da Educação Física escolar não representa simplesmente a substituição de um modelo por outro. Elementos de concepções anteriores ainda podem permanecer nas práticas pedagógicas contemporâneas, especialmente quando as aulas continuam centradas exclusivamente na execução de exercícios ou na prática esportiva. Dessa forma, a consolidação de uma Educação Física crítica e inclusiva exige não apenas mudanças curriculares, mas também condições concretas para que os professores possam desenvolver propostas diversificadas e contextualizadas.

Na perspectiva contemporânea, a Educação Física escolar apresenta o desafio de articular experiências práticas e reflexão, garantindo aos estudantes oportunidades de vivenciar diferentes manifestações da cultura corporal e compreender seus significados. As orientações da BNCC reforçam essa necessidade ao estabelecer competências relacionadas à participação, à autonomia, à diversidade cultural, à saúde e ao enfrentamento de preconceitos.

Dessa forma, observa-se que a evolução da Educação Física escolar no Brasil reflete um processo contínuo de transformação, no qual a disciplina deixa de ser compreendida exclusivamente como treinamento corporal e passa a assumir uma função educativa mais ampla. Entretanto, os avanços presentes nos referenciais teóricos e normativos precisam ser acompanhados de condições pedagógicas e estruturais que possibilitem sua efetivação no cotidiano escolar.

 

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

O presente estudo teve como objetivo analisar a trajetória histórica da Educação Física escolar no Brasil, destacando suas principais fases de desenvolvimento e as transformações ocorridas ao longo do tempo. A partir da revisão bibliográfica realizada, foi possível compreender que a disciplina passou por diferentes concepções pedagógicas, refletindo as mudanças sociais, políticas e educacionais ocorridas no país.

Os resultados evidenciaram que a Educação Física escolar esteve inicialmente associada a concepções higienistas e militaristas, nas quais o corpo era compreendido principalmente sob a perspectiva da saúde, da disciplina e da preparação física. Posteriormente, com o processo de esportivização, os esportes passaram a ocupar posição central nas aulas, contribuindo para a sistematização das práticas esportivas, mas também produzindo limitações relacionadas à valorização excessiva do rendimento, da técnica e da competição.

A pesquisa demonstrou ainda que, especialmente a partir das décadas de 1980 e 1990, ocorreu uma importante transformação no campo teórico da Educação Física brasileira, com o fortalecimento de concepções críticas e da perspectiva da cultura corporal. Essa mudança ampliou a compreensão da disciplina ao reconhecer que jogos, brincadeiras, danças, lutas, ginásticas, esportes e outras práticas corporais possuem dimensões históricas, culturais e sociais que podem ser exploradas pedagogicamente.

No contexto contemporâneo, os documentos curriculares reforçam essa ampliação do papel da Educação Física. A BNCC estabelece competências específicas para o componente no Ensino Fundamental, contemplando a compreensão da cultura corporal de movimento, a reflexão crítica sobre saúde, o respeito à diversidade, o combate a preconceitos e a valorização das práticas corporais como elementos da identidade cultural. Além disso, a legislação educacional brasileira reconhece a Educação Física como componente curricular obrigatório da Educação Básica, integrada à proposta pedagógica da escola.

Apesar dos avanços identificados, o estudo apresenta algumas limitações. Por se tratar de uma pesquisa bibliográfica, as conclusões estão condicionadas às características, aos recortes teóricos e às informações disponíveis nas produções selecionadas. Além disso, a pesquisa não envolveu observação direta das aulas, entrevistas com professores, aplicação de questionários ou investigação das condições concretas de diferentes escolas. Dessa maneira, os resultados não permitem generalizar como as concepções discutidas na literatura são efetivamente aplicadas em todos os contextos escolares brasileiros.

Outra limitação refere-se à própria diversidade histórica e regional do Brasil, uma vez que diferentes redes de ensino, escolas e professores podem apresentar condições distintas para a implementação das orientações curriculares. Assim, embora os documentos normativos estabeleçam competências e aprendizagens esperadas, a concretização dessas propostas depende de fatores como formação docente, disponibilidade de materiais, espaços físicos, organização escolar e características socioculturais de cada comunidade.

Diante dessas limitações, recomenda-se que pesquisas futuras aprofundem a investigação sobre a implementação das diferentes abordagens pedagógicas da Educação Física em contextos escolares concretos. Estudos de campo, pesquisas com professores e estudantes, observações de aulas e análises comparativas entre diferentes redes de ensino podem contribuir para compreender de que maneira as orientações curriculares são incorporadas à prática pedagógica. Também são relevantes pesquisas que investiguem estratégias para fortalecer a inclusão, a diversidade, a participação dos estudantes e a valorização das diferentes manifestações da cultura corporal.

Conclui-se, portanto, que a trajetória histórica da Educação Física escolar no Brasil revela um processo contínuo de transformação, no qual a disciplina ampliou progressivamente seu papel educativo. De uma concepção inicialmente marcada pela disciplina corporal, pela higiene e pelo rendimento físico, passou-se a uma perspectiva que reconhece as práticas corporais como manifestações culturais, sociais e históricas. Nesse processo, os documentos curriculares contemporâneos reforçam a necessidade de uma Educação Física comprometida com a participação, a autonomia, a diversidade, a reflexão crítica e a formação dos estudantes.

 

REFERÊNCIAS

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KUNZ, Elenor. Transformação didático-pedagógica do esporte. Ijuí: Unijuí, 1994.

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