EU, DIANTE DA CHAMA: A CONSCIÊNCIA EMOCIONAL NA CONSTRUÇÃO DA ESCRITA POÉTICA

I, BEFORE THE FLAME: EMOTIONAL CONSCIOUSNESS IN THE CONSTRUCTION OF POETIC WRITING

Dói: 10.5281/zenodo.19377430

 

AUTORA: CAVALCANTE, Ane Marie da Vitória[1]

[1]Formação acadêmica mais alta com a área. Instituição de formação.

RESUMO

O presente artigo investiga a escrita poética como manifestação da consciência emocional, compreendendo o amor como experiência simbólica que ultrapassa a dimensão material. A análise fundamenta-se na produção literária autoral presente nas obras Os sentimentos de Giova e Confissões de Giovana, estabelecendo diálogo com a tradição poética de Pablo Neruda e a escrita introspectiva de Clarice Lispector. A pesquisa caracteriza-se como qualitativa interpretativa, evidenciando que determinadas conexões afetivas são percebidas como reconhecimento entre consciências. Observa-se que a poesia possibilita elaborar experiências emocionais complexas, transformando memória sensorial em linguagem simbólica. Conclui-se que o amor, enquanto experiência subjetiva, pode ser compreendido como processo de ampliação da percepção do sujeito sobre si mesmo e sobre o outro, revelando a escrita poética como instrumento de consciência emocional.

 

Palavras-chave: poesia; consciência emocional; subjetividade; amor; memória sensorial.

 

ABSTRACT

This article investigates poetic writing as an expression of emotional consciousness, understanding love as a symbolic experience that transcends the material dimension. The analysis is based on the author’s literary production in os sentimentos de Giovana and Confissões de Giovana, relating them to the poetic tradition of Pablo Neruda and the introspective writing of Clarice Lispector. The research is qualitative and interpretative, showing that certain affective connections are perceived as recognition between consciousnesses. Poetry allows the elaboration of complex emotional experiences, transforming sensory memory into symbolic language. It is concluded that love, as a subjective experience, can be understood as a process of expanding the subject’s perception of self and others, revealing poetic writing as an instrument of emotional awareness.

 

Keywords: poetry; emotional consciousness; subjectivity; love.

 

1 INTRODUÇÃO

A escrita poética constitui uma forma de manifestação da subjetividade humana, especialmente quando emerge de experiências emocionais intensas que ultrapassam a racionalidade. O conjunto de poemas apresentado neste estudo nasce de uma percepção de pertencimento imediato, descrita como reconhecimento entre consciências.

O amor, nesse contexto, não se limita à dimensão material, mas apresenta-se como experiência simbólica de conexão interior, percebida como linguagem sensível entre corpo e emoção.

Segundo Pablo Neruda: “Em um beijo, saberás tudo o que calei.” Já Clarice Lispector afirma: “Aquilo que não sei dizer é mais importante do que o que digo.” A escrita poética torna-se linguagem possível para experiências que não encontram tradução objetiva, revelando o amor como fenômeno de consciência emocional.

 

2 REFERENCIAL TEÓRICO

 2.1 Literatura e interioridade humana

A literatura apresenta-se como espaço de investigação da experiência subjetiva.

Neruda descreve o amor como permanência simbólica: “O amor é breve, esquecer é demorado.”

Clarice Lispector aborda o sentimento como experiência de descoberta: “Sentir é um fato que não tem explicação.” Na obra O Inferno de Gabriel, de Sylvain Reynard, o amor é apresentado como experiência de transformação interior.

Nas obras Os sentimentos de Giovana e Confissões de Giovana, observa-se o amor como caminho de reconhecimento emocional.

 

3 METODOLOGIA

 Pesquisa qualitativa interpretativa baseada na análise da produção poética autoral.

Critérios de análise:

 

  • consciência emocional
  • pertencimento simbólico
  • memória sensorial
  • diálogo entre consciências
  • amor como linguagem subjetiva

Procedimentos:

leitura analítica dos poemas
identificação de elementos simbólicos
interpretação fenomenológica da experiência afetiva

 

4 RESULTADOS E DISCUSSÕES

 

4.1 O amor como reconhecimento simbólico

 

Poema 1 – Eu, diante da chama

Eu buscava uma porta onde o mundo não terminasse em mim,
onde minhas margens não fossem limite do que posso ser.

Caminhava entre paredes invisíveis, carregando a estranha certeza
de que faltava algo que nunca soube nomear.

Então você surgiu, como uma chama que não consome,
como uma luz que não pede permissão para tocar o que estava adormecido.

Ao seu lado, minhas fronteiras hesitaram.
Minha história deixou de ser peso
e tornou-se apenas caminho.

Houve um instante em que não éramos dois corpos,
mas uma passagem aberta entre aquilo que fomos
e aquilo que ainda pulsa para nascer.

 

4.2 Amor imaginado e ausência simbólica

 

Poema 2 – Entre ausência e permanência

 

Meus dias têm se tornado espaços ocos
onde a tua ausência ecoa como um sussurro interminável.

É como se eu tivesse sido partida em duas versões de mim:
uma que insiste em permanecer,
e outra que se perdeu no intervalo entre o que fomos
e o que nunca chegamos a ser.

Existe um amor que não se vive —
ele se imagina, se projeta,
se alimenta do quase, do possível, do invisível.

E ainda assim… eu espero.

 

4.3 A percepção da distância emocional

 

Poema 3 – Consciência da distância

 

Os dias já não se organizam como antes.
Existe um vazio por dentro de mim,
uma espécie de deslocamento sutil,
como se algo tivesse saído do eixo
e, ainda assim, continuasse funcionando.

A tua ausência não é ruptura,
é diluição.

Vai se espalhando pelas horas,
ocupando os intervalos,
redefinindo silenciosamente
o que antes era presença.

 

4.4 Frequência emocional e sintonia simbólica

 

Poema 4 – Frequências

 

Sinto falta de frequências,
de nuances quase imperceptíveis:

um timbre que me encontrava sem esforço,
um gesto que sustentava sem peso,
uma energia firme onde eu podia repousar
sem precisar me justificar.

Havia um alinhamento raro,
não construído,
apenas reconhecido.

 

4.5 Pertencimento simbólico

 

Poema 5 – O reconhecimento da alma

 

Olhar seus olhos foi saber.

Não saber racional.
Saber interno.

Como se minha alma já tivesse desejado
te encontrar
por cada segundo da minha existência.

Uma sensação de pertencimento imediato,
como se o amor não tivesse começado ali,
apenas tivesse sido lembrado.

 

4.6 Memória sensorial do amor

 

Poema 6 – A madrugada que permanece

 

Ainda existe uma madrugada em mim que nunca terminou.
Ela permanece suspensa no tempo,
como um instante que se recusou a partir.

O mundo silenciava lá fora,
e tudo o que existia era a última noite que adormecemos.

Lembro-me da penumbra suave,
da luz tímida que atravessava o quarto,
como se respeitasse a intensidade daquele momento.

Você estava ali.
Tão próximo que o ar parecia compartilhado,
que o espaço entre nós deixava de existir.

Havia um ritmo não explicado,
apenas sentido.

Como se nossos corpos soubessem, em silêncio,
exatamente onde pertenciam.

O tempo seguiu,
mas não levou o que permaneceu em mim.

Certas lembranças não se guardam na mente,
permanecem na essência do sentir.

Meu corpo reconhece.
Minha respiração se altera.

E por um breve segundo eterno,
aquela madrugada retorna.

Porque certas conexões
não se desfazem com a distância,
nem se apagam com o tempo.

 

4.7 Amor como linguagem do corpo

 

Poema 7 – Entre o silêncio e o amanhecer

 

A noite começou suave,
como se o tempo tivesse desacelerado para caber em nós.

Os beijos vieram lentos,
carregados de algo que ia além do toque.

Cada gesto parecia desenhar o contorno do meu ser,
e a pele reconhecia o caminho antes mesmo que ele o traçasse.

Havia ternura e desejo misturados,
como se um pertencesse ao outro desde sempre.

Quando nossos corpos se encontraram,
não foi apenas um encontro, foi reencontro.

Era como se o universo inteiro tivesse se curvado
para permitir aquele instante.

Ao amanhecer, o silêncio não era vazio.
Era o eco do que fomos.

 

4.8 Diálogo emocional simbólico

 

Poema 8 – Carta em energia

 

Existe algo em mim que nunca soube ir completamente embora.

Mesmo quando tentei seguir outros caminhos,
uma parte de mim permanecia voltando.

O tempo não apagou o que existiu.

Hoje compreendo que amar também é aprender a permanecer.

 

4.9 Resposta da consciência afetiva

 

Poema 9 – Resposta da alma

Não quero que você volte igual.
Quero que volte verdadeiro.

O que ficou entre nós não se perdeu,
apenas silenciou por um tempo.

Aprendi que amor não é cobrança.
É um lugar onde dois corações descansam.

 

5 DISCUSSÃO TEÓRICA AMPLIADA

 

A análise dos poemas enfatiza o amor como uma vivência de econhecimento simbólico entre diferentes consciências, na qual a interação afetiva atua como um indicador de correspondência e distinção entre subjetividades. Esse reconhecimento não se limita a uma esfera afetiva isolada; ao contrário, manifesta-se como um processo de leitura mútua, mediada por signos que se entrelaçam tanto na materialidade da linguagem quanto na textura da vivência sensível.

Dessa forma, o amor desempenha o papel de um vínculo semiótico que, de maneira simultânea, organiza tanto o sentido quanto a relação entre o eu e o outro, possibilitando a formação de uma identidade coletiva que se edifica por meio da interlocução entre os sujeitos.

A memória sensorial se apresenta como um componente fundamental da identidade emocional, ao funcionar como um arquivo experiencial que codifica, conserva e, efetivamente, reconfigura as pulsações afetivas ao longo do tempo. Dentro desse contexto, as sensações, os gestos e as imagens sensoriais não se configuram como simples resíduos episódicos; antes, constituem fontes fundamentais de memória afetiva que modelam padrões de afeto, desejo e pertencimento. A repetição, a intensidade e a caracterização sensorial das experiências amorosas geram impressões persistentes na subjetividade, moldando uma autobiografia emocional que direciona decisões, interpretações e expectativas afetivas futuras.

A literatura, nesse cruzamento entre poesia e teoria, revela que o amor pode ser entendido como uma linguagem da subjetividade, um sistema de signos que codifica percepções, desejos e conflitos internos, de maneira que a experiência amorosa se torne compreensível não apenas para o eu, mas também para o outro, ao ser transgredido pela relação estabelecida.

Nesse contexto, o amor atua como um instrumento de expressão e formação de identidade, ao converter estados internos em formas discursivas que são acessíveis, ambivalentes e impregnadas de significados políticos. Ao considerar o amor como uma expressão da subjetividade, o âmbito literário torna evidente a capacidade de traduzir vivências individuais para o domínio coletivo da significação, ao mesmo tempo em que destaca as tensões entre a singularidade pessoal e as construções socioculturais que delineiam a prática amorosa.

Em síntese, é possível perceber que a dinâmica amorosa, no contexto literário, atua em três níveis interligados: (1) enquanto um processo de reconhecimento simbólico que cria uma conexão entre consciências; (2) na forma de uma matriz de memória sensorial que forma a identidade emocional ao longo do tempo; e (3) como uma linguagem da subjetividade que organiza, codifica e expõe a complexidade e a ambiguidade da experiência amorosa, proporcionando, portanto, uma fundamentação teórica sólida para a análise crítica da afetividade na literatura.

 

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Esta pesquisa caracteriza-se como de abordagem qualitativa, de natureza bibliográfica e interpretativa. A análise fundamenta-se na leitura e interpretação de obras literárias, buscando compreender os sentidos simbólicos presentes na construção poética.
De acordo com Gil, a pesquisa bibliográfica é desenvolvida a partir de material já elaborado, especialmente livros e artigos científicos, permitindo a construção teórica do objeto de estudo

Além disso, utiliza-se uma abordagem interpretativa, considerando que a análise literária envolve a compreensão de significados, emoções e subjetividades expressas na linguagem poética.

Dessa forma, o estudo propõe uma leitura sensível e crítica, articulando teoria e interpretação para compreender as dimensões afetivas presentes na escrita.

 

AGRADECIMENTOS

À experiência que despertou esta escrita
e à memória que permanece como chama simbólica.

A um afeto que nasceu na simplicidade de um encontro,
mas que se expandiu para além do instante.
Nos detalhes quase imperceptíveis — no olhar, na presença
e na forma singular como me chamava, “Creide” —
revelou-se uma intensidade que escapa à linguagem objetiva.

Há escritas que não se explicam: apenas se originam.
E esta nasce de um lugar específico, ainda que silencioso —
direcionado, mesmo quando não nomeado.

Àquilo que, mesmo efêmero,
tornou-se permanência em forma de palavra.

 

REFERÊNCIAS

CAVALCANTE, Ane Marie da Vitória. Confissões de Giovana: poesias. 1. ed. 2019. 201 p.

CAVALCANTE, Ane Marie da Vitória. Os sentimentos de Giovana. 1. ed. 2018. 206 p.

GIL, Antônio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2017.

LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

MARTINS, Gilberto de Andrade; THEÓPHILO, Carlos Renato. Metodologia da investigação científica para ciências sociais aplicadas. São Paulo: Atlas, 2018.

NERUDA, Pablo. Vinte poemas de amor e uma canção desesperada. Porto Alegre: L&PM, 2011.

REYNARD, Sylvain. O inferno de Gabriel. Rio de Janeiro: Arqueiro, 2013.

 

BIOGRAFIA

Ane Marie da Vitória Cavalcante é pedagoga formada em 2009, com segunda licenciatura em Letras – Português. Possui pós-graduação em Literatura, Psicopedagogia e Psicanálise Clínica (2012). Atualmente, cursa Mestrado, aprofundando suas pesquisas na área educacional e literária. Aos 46 anos, é autora de dois livros publicados, destacando-se pelo compromisso com a educação, a leitura e o desenvolvimento humano.

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