The mathematics scavenger hunt as an interdisciplinary pedagogical practice: a report on the second edition at the aida ramalho pereira cortez full-time state school within the context of |PIBID/IFRN
Dói: 10.5281/zenodo.21224159
Autores:
Dayanne Gabrielly da Fonseca Silva [1]
Bianca Karina Barreto de Freitas [2]
Livia Thaynara Fernandes Araújo [3]
Lucinária Carla Oliveira Silva Tavernard [4]
Nichollas Lebeu de Oliveira Carvalho [5]
Paulo José de Souza Meira [6]
Orientador:
Dr. Elias das Neves Freire [7]
[1]Graduanda Licenciatura em Matemática, IFRN, dayannegabrielly13@gmail.com
[2] Graduanda Licenciatura em Matemática, IFRN, biancakarinabf@gmail.com
[3] Graduanda Licenciatura em Matemática, IFRN, liviafernandes15@hotmail.com
[4] Graduanda Licenciatura em Matemática, IFRN, lucinariacarla@hotmail.com
[5] Graduando Licenciatura em Matemática, IFRN, lebeu19@gmail.com
[6] Graduando Licenciatura em Matemática, IFRN, paulomeira374@gmail.com
[7] Doutorado em Economia, UFPB, eliasnef@yahoo.com.br
RESUMO
Este artigo tem como objetivo relatar e analisar a segunda edição da Gincana Matemática realizada em 2025 na Escola Estadual em Tempo Integral Aida Ramalho Cortez Pereira, em Mossoró/RN, como parte das ações do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID), vinculado ao Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN), Campus Mossoró. Caracteriza-se como um relato de experiência de natureza qualitativa, desenvolvido a partir da observação e participação dos licenciandos envolvidos na organização e execução da atividade. A gincana foi realizada em comemoração ao Dia Nacional do Matemático e contou com a participação de estudantes do Ensino Médio em desafios matemáticos, atividades interdisciplinares e ações de responsabilidade social. A análise da experiência evidenciou o fortalecimento do protagonismo estudantil, o incentivo ao trabalho colaborativo, a ampliação do interesse pela Matemática e a aproximação entre a formação inicial de professores e a educação básica. Conclui-se que a Gincana Matemática constitui uma estratégia pedagógica relevante para a promoção de aprendizagens significativas, contribuindo para a formação docente e para a valorização da Matemática como prática social e cultural.
Palavras-chave: Educação Matemática; PIBID; Interdisciplinaridade; Formação Docente; Gincana Matemática.
ABSTRACT
This article aims to report on and analyze the second edition of the Mathematics Competition held in 2025 at the Aida Ramalho Pereira Cortez Full-Time State School in Mossoró, Rio Grande do Norte (RN). The event was part of the activities of the Institutional Program for Teaching Initiation Scholarships (PIBID), linked to the Federal Institute of Education, Science and Technology of Rio Grande do Norte (IFRN), Mossoró Campus. The study is characterized as a qualitative experience report, based on the observations and participation of the pre-service teachers involved in organizing and executing the activity. The competition was held to commemorate National Mathematician’s Day and involved high school students in mathematical challenges, interdisciplinary activities, and social responsibility initiatives. Analysis of the experience highlighted the strengthening of student agency, the encouragement of collaborative work, increased interest in Mathematics, and the fostering of closer ties between initial teacher training and basic education. It is concluded that the Mathematics Competition constitutes a relevant pedagogical strategy for promoting meaningful learning, contributing to teacher training and the appreciation of Mathematics as a social and cultural practice.
Keywords: Mathematics Education; PIBID; Interdisciplinarity; Teacher Training; Mathematics Competition
1 INTRODUÇÃO
A Matemática é frequentemente percebida pelos estudantes como uma disciplina abstrata e distante de sua realidade, o que demanda práticas pedagógicas que favoreçam uma aprendizagem mais significativa. Nesse contexto, metodologias que articulam ludicidade, desafios e cooperação mostram-se capazes de despertar o interesse dos estudantes e fortalecer o processo de ensino e aprendizagem. Em reconhecimento à importância dessa ciência e à necessidade de práticas, que evidenciem que a matemática pode ser ensinada de forma criativa, contextualizada e acessível, surge a proposta da gincana em comemoração ao Dia do Matemático comemorado no dia 26 de outubro.
Inspirada nessa concepção, a Escola Estadual em Tempo Integral Aida Ramalho Cortez Pereira, em Mossoró-RN, passou a celebrar a data por meio da Gincana de Matemática, iniciativa organizada pelo Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID) do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN) – Campus Mossoró. A primeira edição, realizada em 2023, buscou aproximar os estudantes da Matemática por meio de desafios, jogos e competições educativas, alcançando ampla participação da comunidade escolar e evidenciando o potencial dessa metodologia para promover uma aprendizagem significativa.
O sucesso da primeira edição motivou a realização da segunda, em 2025, que ampliou a proposta ao incorporar, além das atividades pedagógicas, uma ação social. A iniciativa fortaleceu valores como solidariedade, cidadania e responsabilidade social, consolidando a Gincana de Matemática como um projeto permanente da escola, com realização anual.
Além de contribuir para o desenvolvimento do raciocínio lógico dos estudantes, a experiência evidencia a importância do PIBID na formação inicial de professores, ao aproximar universidade e escola, proporcionando vivências de planejamento e prática docente.
Fundamentado nas contribuições de D’Ambrósio (2009), Piaget, Paulo Freire, entre outros autores, este artigo tem como objetivo relatar e analisar a segunda edição da Gincana de Matemática, destacando suas contribuições para a formação docente, o ensino, a aprendizagem e a promoção de práticas educativas na Matemática presente no Ensino Médio que integrem conhecimentos, cidadania e compromisso social.
2 Referencial Teórico
Toda proposta pedagógica comprometida com a transformação da realidade precisa fundamentar-se em uma concepção clara de ser humano e de sociedade. Nessa perspectiva, Paulo Freire se torna indispensável. Em Pedagogia do Oprimido, Freire (1987) denuncia o que denomina de “educação bancária”, modelo em que o educando é tratado como recipiente passivo no qual o educador deposita conteúdo. Para o autor, tal concepção nega a vocação ontológica do ser humano, de humanizar-se através da ação e da reflexão sobre o mundo.
A crítica freiriana encontra respaldo científico na teoria construtivista de Jean Piaget. Ao afirmar que “o conhecimento não dá, de maneira alguma, uma cópia figurativa da realidade […], consiste sempre de processos operativos que chegam a transformar o real” (PIAGET, 1976, p. 77), o autor defende que nosso conhecimento é uma construção ativa pois o sujeito precisa agir sobre o objeto de conhecimento para compreendê-lo. Tal compreensão fundamenta práticas pedagógicas que valorizam a participação ativa dos estudantes, reconhecendo–os como sujeitos centrais do processo de ensino e aprendizagem.
Sob esse prisma, a aprendizagem matemática não ocorre pela simples transmissão de conteúdos, mas pela interação dos alunos com situações-problema que desafiam seu raciocínio, favorecendo a reflexão, a investigação e a reconstrução de conceitos. Essa concepção aproxima-se da perspectiva defendida por Ubiratan D’Ambrosio (2009), ao afirmar que a Educação Matemática deve ultrapassar a mera reprodução de procedimentos e fórmulas, promovendo um ensino contextualizado, significativo e relacionado às experiências dos estudantes. Para o autor, a Matemática deve ser compreendida como uma construção humana, vinculada às diferentes práticas sociais e culturais, tornando o processo de ensino-aprendizagem mais dinâmico, crítico e participativo. Nessa perspectiva, estratégias pedagógicas como gincanas matemáticas, jogos e atividades interdisciplinares favorecem a construção do conhecimento, ao possibilitarem que os educandos aprendam por meio da investigação, da cooperação e da resolução de desafios, atribuindo significado aos conceitos matemáticos.
Essas ideias encontram amparo legal na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), documento norteador do currículo da Educação Básica no Brasil. A BNCC (BRASIL, 2018) estabelece competências específicas para utilização de processos e ferramentas matemáticas com intenção de modelar e resolver problemas cotidianos, sociais e de outras áreas do conhecimento, validando estratégias e resultados.
A interdisciplinaridade constitui um princípio essencial para superar o ensino fragmentado e descontextualizado. Segundo Fazenda (2008), essa abordagem promove a articulação entre diferentes áreas do conhecimento, possibilitando uma compreensão mais ampla da realidade. No ensino de Matemática, essa integração favorece a contextualização dos conteúdos e o diálogo com outras áreas do saber, tornando a aprendizagem mais significativa e próxima da vivência dos estudantes. O Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID), criado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), possibilita que licenciandos vivenciem experiências pedagógicas reais durante a formação inicial, articulando teoria e prática, desenvolvendo metodologias inovadoras em parceria com escolas públicas. Essa aproximação fortalece a formação docente ao proporcionar aos licenciandos a oportunidade de planejar, aplicar e avaliar estratégias de ensino, como a Gincana Matemática, antes mesmo do exercício profissional da docência.
A Gincana Matemática, como estratégia pedagógica lúdica, materializa os fundamentos teóricos discutidos anteriormente. Ao propor desafios, jogos e atividades em equipe, favorece a participação ativa dos estudantes na construção do conhecimento. Nessa perspectiva, Freire (1996, p. 25) afirma que “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção”, evidenciando que o processo educativo deve estimular a autonomia e o protagonismo dos educandos. De forma complementar, Kishimoto (2017) destaca que o jogo, quando utilizado com intencionalidade pedagógica, constitui um importante recurso para o desenvolvimento cognitivo, social e afetivo, tornando a aprendizagem mais significativa. Nessa mesma linha, Smole, Diniz, Pessoa e Ishihara ressaltam que os jogos matemáticos favorecem o desenvolvimento do raciocínio lógico e a compreensão de conceitos, ao mesmo tempo em que tornam o processo de aprendizagem mais prazeroso e motivador, mesmo entre estudantes do Ensino Médio.
Assim, ao integrar ludicidade, cooperação e resolução de problemas, a Gincana Matemática configura-se como uma estratégia alinhada aos pressupostos de Piaget, Freire, D’Ambrosio, Kishimoto e da Educação Matemática contemporânea.
3 Metodologia
A experiência relatada foi desenvolvida na Escola Estadual em Tempo Integral Aida Ramalho Cortez Pereira, localizada no município de Mossoró, Rio Grande do Norte, instituição que atende estudantes do Ensino Médio em regime de tempo integral. Essa modalidade de ensino favorece a realização de projetos pedagógicos interdisciplinares, uma vez que amplia as possibilidades de interação entre estudantes, professores e demais integrantes da comunidade escolar.
As ações foram realizadas no âmbito do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID), política pública voltada ao fortalecimento da formação inicial de professores por meio da inserção de licenciandos no contexto da educação básica. No Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN), Campus Mossoró, o subprojeto de Matemática desenvolve atividades em parceria com a referida escola, buscando articular os conhecimentos teóricos da formação acadêmica às práticas pedagógicas vivenciadas no ambiente escolar.
O presente trabalho configura-se, do ponto de vista metodológico, como um relato de experiência de natureza qualitativa. Os seus dados se dão a partir de observações feitas por professores e discentes da Licenciatura em Matemática do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte – IFRN Campus Mossoró. Os dados foram obtidos durante o planejamento e execução do projeto, sendo complementados por registros fotográficos autorais. A análise foi realizada de forma descritiva e interpretativa, com base nas concepções dos referenciais teóricos que fundamentam o trabalho.
A Gincana de Matemática constitui uma das principais ações desenvolvidas nessa parceria. Sua primeira edição foi realizada em outubro de 2023, em alusão ao Dia Nacional da Matemática, a partir de uma proposta elaborada pelos bolsistas do PIBID com o objetivo de promover a aproximação dos estudantes com a disciplina por meio de atividades lúdicas, desafios matemáticos e práticas colaborativas.
A edição inaugural contou com a participação de estudantes de todas as turmas da escola e com o envolvimento de professores de diferentes áreas do conhecimento, que contribuíram para a organização das equipes e para a execução das atividades propostas. A ampla participação dos estudantes, associada ao envolvimento dos docentes e à repercussão positiva no contexto escolar, evidenciou a relevância da iniciativa e contribuiu para sua continuidade nos anos subsequentes.
A programação da primeira edição foi realizada durante um turno letivo e contemplou atividades como desafios de raciocínio lógico, provas de agilidade, montagem de cubo mágico, torta na cara, gritos de guerra e outras dinâmicas em equipe. O envolvimento demonstrado pelos participantes durante a realização das atividades indicou o potencial da proposta para estimular o interesse dos estudantes pela Matemática e fortalecer sua participação no ambiente escolar.
Figura 1 – Registro da primeira edição da gincana matemática
A segunda edição da Gincana de Matemática, realizada em outubro de 2025, apresentou ampliação significativa em sua estrutura organizacional e em seus objetivos pedagógicos. Essa ampliação pode ser observada em três aspectos centrais: a interdisciplinaridade, o caráter social da proposta e sua consolidação institucional.
No âmbito da interdisciplinaridade, a atividade contou com a participação de todos os professores da escola, independentemente de sua área de atuação. Os docentes atuaram como orientadores das equipes, contribuindo para a organização das atividades, para o acompanhamento dos estudantes e para o desenvolvimento das ações previstas no evento. Essa participação coletiva favoreceu a integração entre diferentes componentes curriculares e fortaleceu o caráter interdisciplinar da proposta.
Como estratégia de incentivo à participação estudantil, alguns professores incorporaram o envolvimento dos estudantes na gincana aos critérios avaliativos de suas disciplinas, especialmente no componente curricular de Matemática. Tal iniciativa contribuiu para ampliar o engajamento dos participantes e reforçar a articulação entre as atividades da gincana e o processo de ensino e aprendizagem desenvolvido na escola.
Diferentemente da primeira edição, a segunda foi realizada ao longo de um dia inteiro de atividades, demandando maior planejamento e articulação entre bolsistas do PIBID, equipe gestora, professores e estudantes. O processo de organização envolveu desde a elaboração do regulamento e definição das provas até a execução e avaliação das atividades.
Figura 02 – Equipe do PIBID e professores

As equipes participaram de diversas provas, entre as quais se destacam desafios de raciocínio lógico, cálculos mentais, atividades relacionadas à história da Matemática, caça ao tesouro com charadas matemáticas, provas de agilidade e dinâmicas cooperativas. Também foram desenvolvidas atividades voltadas à expressão artística e à criatividade, como a elaboração de mascotes com materiais recicláveis, a criação de nomes para as equipes, apresentações culturais e gritos de guerra inspirados em elementos da Matemática.
A avaliação dessas atividades foi realizada por bolsistas do PIBID vinculados a outras escolas parceiras do IFRN Campus Mossoró, bem como por professores que não atuavam diretamente como orientadores das equipes participantes, buscando assegurar maior imparcialidade no processo avaliativo.
Figura 03 – Mascotes das equipes da gincana

Uma das principais inovações da segunda edição foi a incorporação de uma ação de caráter social. Como parte da pontuação da gincana, as equipes foram incentivadas a arrecadar alimentos não perecíveis, resultando na coleta de mais de 300 kg de alimentos, superando as expectativas dos organizadores do evento. Isso demonstrando que o engajamento dos estudantes foi além da competição e se estendeu ao compromisso com a comunidade. Posteriormente, as doações foram destinadas ao Lar da Criança Pobre, instituição que desenvolve atividades de assistência social no município de Mossoró/RN.
Figura 04 – Entrega dos alimentos arrecadados ao lar da criança pobre

No âmbito institucional, a segunda edição resultou na oficialização da Gincana de Matemática como projeto permanente da escola. A partir de 2025, a atividade passou a integrar o calendário escolar, com previsão de realização anual. Tal reconhecimento evidencia a relevância pedagógica da iniciativa e sua contribuição para o fortalecimento das práticas educativas desenvolvidas na instituição.
Além de favorecer a aprendizagem matemática em contextos diferenciados, a gincana contribuiu para o fortalecimento das relações entre estudantes, professores, equipe gestora e licenciandos participantes do PIBID, consolidando-se como um espaço de integração, protagonismo estudantil e formação docente.
4 Resultados e Discussões
A análise da segunda edição da Gincana de Matemática permite identificar dimensões pedagógicas significativas, sustentadas pelos referenciais teóricos discutidos anteriormente.
A primeira dimensão refere-se à aprendizagem ativa e à resolução de problemas. Ao longo de toda a gincana, os mais de 200 estudantes foram desafiados a participar ativamente da construção do conhecimento matemático, por meio da resolução de situações-problema que exigiam a elaboração de estratégias, a tomada de decisões, a colaboração entre os membros das equipes e a reformulação de raciocínios diante dos desafios propostos. Essas ações favoreceram a mobilização de conhecimentos prévios e o desenvolvimento do pensamento lógico, elementos fundamentais para a aprendizagem significativa da Matemática.
Os resultados observados corroboram a perspectiva defendida por Piaget ao enfatizar a importância dos métodos ativos no processo de ensino e aprendizagem. Segundo o autor, “os métodos ativos de educação das crianças têm muito mais êxito que os outros no ensino dos ramos abstratos tais como a aritmética e a geometria” (PIAGET, 1985, p. 165). Nesse sentido, a iniciativa se constituiu um espaço de aprendizagem no qual os estudantes deixaram de ocupar uma posição passiva para atuar como protagonistas na resolução dos desafios propostos.
Além disso, a Matemática foi apresentada em contextos diversificados, ultrapassando os limites das metodologias tradicionais de ensino. Os conceitos matemáticos estiveram presentes em jogos, desafios de raciocínio lógico, atividades relacionadas à história da Matemática, apresentações culturais e provas interdisciplinares, possibilitando aos estudantes vivenciar diferentes formas de interação com o conhecimento matemático. Dessa maneira, o evento favoreceu a aprendizagem por meio da ação, da investigação e da resolução de problemas, aspectos centrais da perspectiva construtivista proposta por Piaget.
A segunda dimensão analisada diz respeito à autonomia e ao protagonismo estudantil. Em consonância com os princípios da Pedagogia da Autonomia, a atividade colocou os estudantes em posição de sujeitos ativos do processo educativo, incentivando-os a participar da construção do conhecimento por meio da tomada de decisões, da elaboração de estratégias e da resolução de desafios matemáticos.
Durante as atividades, os estudantes foram constantemente estimulados a assumir responsabilidades dentro de suas equipes, organizar ações, propor soluções e enfrentar situações que exigiam raciocínio, criatividade e capacidade de argumentação. Dessa forma, a aprendizagem ocorreu de maneira participativa, superando práticas centradas na simples transmissão de conteúdos.
Essa perspectiva encontra respaldo em Freire (1996, p. 25), ao afirmar que “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção”. Nesse sentido, a gincana constituiu um ambiente favorável à construção da autonomia dos estudantes, uma vez que o conhecimento matemático não foi apresentado de forma pronta e acabada, mas construído a partir da interação com os desafios propostos.
Assim, o estudante que resolve um desafio de lógica matemática em uma situação de gincana não se limita à aplicação mecânica de algoritmos ou procedimentos previamente memorizados. Ao contrário, mobiliza conhecimentos, formula hipóteses, avalia possibilidades, toma decisões e desenvolve estratégias para alcançar os objetivos estabelecidos. Esse processo contribui para o fortalecimento do protagonismo estudantil e para a formação de sujeitos mais autônomos em seu percurso de aprendizagem.
A terceira dimensão refere-se à interdisciplinaridade e à Matemática como prática cultural, aspectos que também fazem parte dessa análise. A participação de todos os professores da escola, independentemente de suas especialidades, é um dado de grande relevância pedagógica. Ela sinaliza que a matemática não é patrimônio exclusivo do professor de matemática e que o conhecimento escolar é, em sua essência, integrado. D’Ambrosio (2009) defende que a educação matemática não pode se fechar sobre si mesma: ela precisa dialogar com outras áreas, com a cultura, com a vida. Para o autor, a Matemática deve ser compreendida como uma construção humana presente nas diversas práticas sociais, e não apenas como um conjunto de conhecimentos abstratos desvinculados da vida cotidiana.
A gincana realizou esse diálogo de forma concreta e celebratória, que contribuindo para romper com visões fragmentadas do conhecimento, promovendo experiências que aproximaram a Matemática das demais áreas do currículo e das práticas culturais presentes no ambiente escolar.
A quarta dimensão analisa a perspectiva social e cidadã. A arrecadação de alimentos para o Lar da Criança Pobre inscreveu a atividade no horizonte mais amplo da formação humana. Freire (1996) nos lembra que a educação verdadeira não se separa da realidade social: ela nasce dela e a ela retorna, comprometida com a transformação. Ao articular desafios matemáticos e ações solidárias, a iniciativa evidenciou que a formação matemática pode ocorrer de maneira integrada ao desenvolvimento de valores éticos, sociais e cidadãos.
A quinta dimensão concerne à formação inicial dos licenciandos participantes do PIBID. A realização do projeto proporcionou aos licenciandos uma experiência que ultrapassa os limites da sala de aula, possibilitando sua participação em diferentes etapas do processo educativo, desde o planejamento e definição de objetivos até a elaboração, organização e execução das atividades propostas. Essa vivência favoreceu a articulação entre os conhecimentos teóricos construídos durante a formação acadêmica e a prática docente desenvolvida no contexto escolar, por meio da gestão, mediação e acompanhamento das equipes participantes.
Além disso, a atividade permitiu aos futuros professores compreender de forma mais ampla a dinâmica escolar, os interesses dos estudantes e os principais desafios enfrentados no processo de ensino e aprendizagem. Dessa maneira, a experiência contribuiu significativamente para a formação docente, promovendo o desenvolvimento de competências pedagógicas fundamentais para o exercício da profissão.
5 Considerações Finais
A segunda edição da Gincana de Matemática da Escola Estadual em Tempo Integral Aida Ramalho Cortez Pereira evidenciou o potencial das práticas pedagógicas que articulam aprendizagem, ludicidade, interdisciplinaridade, responsabilidade social e formação docente. Desenvolvida no contexto do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID) do IFRN Campus Mossoró, a iniciativa consolidou-se como uma estratégia capaz de promover o ensino da Matemática de forma significativa, aproximando os estudantes do conhecimento matemático por meio da participação ativa, da resolução de problemas, do trabalho colaborativo e do protagonismo estudantil.
Os resultados observados permitiram identificar contribuições relevantes para a aprendizagem dos estudantes, para o fortalecimento das relações entre os diferentes sujeitos da comunidade escolar e para a formação inicial dos licenciandos envolvidos no projeto. Além disso, a incorporação de ações interdisciplinares e solidárias ampliou o alcance educativo da gincana, demonstrando que a Matemática pode ser vivenciada para além dos limites da sala de aula, em diálogo com a cultura, a cidadania e as demandas sociais.
Na perspectiva de Piaget, a experiência evidenciou a importância dos métodos ativos na construção do conhecimento, favorecendo situações em que os estudantes puderam investigar, elaborar estratégias e construir soluções para os desafios propostos. Sob a ótica freireana, observou-se o fortalecimento da autonomia e do protagonismo dos educandos, que participaram ativamente das atividades e assumiram papel central em seu processo de aprendizagem. Já a partir das concepções de D’Ambrosio, a gincana reafirmou a compreensão da Matemática como uma prática humana, cultural e socialmente significativa.
A institucionalização da Gincana de Matemática como atividade permanente da escola representa não apenas o reconhecimento de sua relevância pedagógica, mas também o compromisso coletivo com a construção de práticas educativas mais participativas, contextualizadas e socialmente comprometidas. Nesse sentido, a experiência relatada demonstra que iniciativas dessa natureza podem contribuir significativamente para a renovação das práticas de ensino da Matemática na educação básica e para o fortalecimento da formação docente no contexto do PIBID.
Como afirma Freire, “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção” (FREIRE, 1996, p. 25). A experiência da gincana evidencia justamente essa perspectiva, ao criar condições para que estudantes e futuros professores construam conhecimentos, desenvolvam autonomia e reconheçam a educação como um processo de transformação individual e coletiva.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018.
D’AMBROSIO, Ubiratan. Educação Matemática: da teoria à prática. 17. ed. Campinas: Papirus, 2009.
FAZENDA, Ivani Catarina Arantes. Interdisciplinaridade: história, teoria e pesquisa. 15. ed. Campinas: Papirus, 2008.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. 25. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
KISHIMOTO, Tizuko Morchida (org.). Jogo, brinquedo, brincadeira e a educação. 14. ed. São Paulo: Cortez, 2017.
PIAGET, Jean. Psicologia e Pedagogia. 9. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1985.
SMOLE, Kátia Stocco; DINIZ, Maria Ignez; PESSOA, Neide; ISHIHARA, Cristiane. Cadernos do Mathema: Ensino Médio: jogos de matemática de 1º a 3º ano. Porto Alegre: Artmed, 2008.